A iluminação pública está a mudar em muitas cidades. As antigas lâmpadas de vapor de sódio, reconhecidas pela sua tonalidade amarela-alaranjada, têm vindo a ser substituídas por tecnologia LED.

 

Mas se a transição para a iluminação LED traz ganhos evidentes em eficiência energética e redução de emissões, importa também olhar para os seus potenciais impactos negativos.

 

A principal preocupação recai sobre os LEDs de temperatura de cor elevada, conhecidos como luz branca fria. Por apresentar características semelhantes às da luz natural do dia, esta luz é interpretada pelo organismo humano e por muitas espécies animais como um sinal de atividade. O resultado é a perturbação do ciclo circadiano, o relógio biológico que regula os períodos de sono e vigília e que desempenha um papel fundamental no equilíbrio do organismo.

 

A exposição à luz azul durante a noite pode reduzir a produção de melatonina, a hormona responsável por preparar o corpo para o descanso. Além de regular os ritmos biológicos, a melatonina contribui para o bom funcionamento do sistema imunitário e para a proteção antioxidante das células. Como consequência, a exposição excessiva a este tipo de iluminação pode dificultar o adormecimento, afetar a qualidade do sono e aumentar os níveis de fadiga e stress.

 

Os impactos podem ir muito além de uma simples noite mal dormida. Quando o equilíbrio natural entre o dia e a noite é constantemente perturbado, as consequências podem fazer-se sentir a longo prazo, estando associadas a diversos problemas de saúde, incluindo obesidade, diabetes tipo 2, doenças cardiovasculares, perturbações de ansiedade e depressão, enfraquecimento do sistema imunitário e alguns tipos de cancro.

 

Os efeitos desta iluminação fazem-se sentir também na fauna, particularmente nas espécies que dependem da escuridão para sobreviver. A presença excessiva de luz artificial pode alterar o comportamento de aves marinhas, morcegos, insetos e outros animais de hábitos noturnos, interferindo com processos essenciais como a orientação, a alimentação, a reprodução e a migração. Em alguns casos, a atração exercida pela luz pode desorientar os indivíduos e aumentar significativamente a sua mortalidade, contribuindo para o declínio de populações já vulneráveis.

 

A boa notícia é que é possível minimizar estes impactos sem abdicar dos benefícios da iluminação LED, através de escolhas mais informadas e responsáveis.

 

É precisamente para responder a este desafio que o projeto LIFE Natura@night está a trabalhar com municípios e entidades regionais da Madeira, dos Açores e das Canárias no desenvolvimento de soluções de iluminação mais compatíveis com a proteção da biodiversidade e o bem-estar das populações. Uma das iniciativas centrais passa pela criação de Planos Diretores de Iluminação Pública, que permitem planear a iluminação de forma integrada e adaptada às características de cada território.

 

Estes planos definem critérios para a intensidade, direção e temperatura de cor da luz, assegurando que a iluminação é utilizada apenas onde e quando é realmente necessária. Entre as soluções propostas estão a utilização de LEDs de tonalidade mais quente (inferior a 3000 K), a instalação de luminárias que direcionem a luz exclusivamente para o solo e a redução da intensidade luminosa durante os períodos de menor utilização.

 

Mais do que uma questão tecnológica, a iluminação pública é uma questão de planeamento. Ao adaptar a iluminação às necessidades reais de cada local, é possível reduzir os impactos da poluição luminosa, protegendo simultaneamente a biodiversidade, a saúde humana e a qualidade do ambiente noturno.

 

Planos Diretores de Iluminação do Concelho