Os predadores introduzidos são uma das maiores ameaças à biodiversidade dos ecossistemas insulares. Muitas espécies nativas destas ilhas evoluíram na ausência de predadores, não desenvolvendo defesas naturais contra estes, o que as torna particularmente vulneráveis perante encontros inesperados. Como resultado, a introdução de predadores pode causar rápidos declínios populacionais e, em alguns casos, levar à extinção local de espécies.

 

Entre os predadores introduzidos que hoje ocorrem na Madeira estão o murganho (Mus musculus), a ratazana-castanha (Rattus norvegicus), a ratazana-preta (Rattus rattus) e o furão (Mustela furo). Mas como é que estes predadores chegaram à região? Para compreender como o território se tornou palco para esta ameaça, é necessário recuar no tempo.

Caçada de coelhos no Poiso, Mamíferos do Arquipélago da Madeira (p. 63), de A. Artur Sarmento, 1986, Diário de Notícias.

Ao contrário do gato, cuja presença está associada à introdução pelo homem no contexto do povoamento e da convivência humana, e dos ratos, cuja chegada à ilha é geralmente atribuída a uma introdução acidental, transportados inadvertidamente nas embarcações, o caso do furão corresponde a uma introdução muito mais intencional, motivada pela sua utilidade na caça.

 

A introdução do furão na Madeira ocorreu durante a Época dos Donatários, entre cerca de 1425 e 1440, integrada na chamada “arte de montear”, trazida pelos nobres como parte das tradições cinegéticas, sobretudo para a caça ao coelho, também introduzido e abundante nas zonas agrícolas. Estes mustelídeos eram utilizados para fazer fugir os coelhos das suas tocas, graças ao seu corpo magro e alongado, que lhes permitia entrar facilmente nos buracos, facilitando assim a captura. Esta prática, frequentemente complementada com o uso de cães, consolidou-se como um elemento importante da atividade cinegética no arquipélago.

 

Na ilha do Porto Santo, era comum o uso da furoeira, uma caixa cilíndrica ou tronco de madeira com tampa e vários orifícios ao longo da superfície, que permitiam ao animal respirar durante o transporte. Esta estrutura incluía uma asa de tecido que permitia ao caçador transportá-la ao ombro.

Utensílios De Caça: A Furoeira, Cultura Madeira

Ao longo dos séculos, os furões que escapavam de cativeiro adaptaram-se rapidamente à vida selvagem, sendo descrito como um animal de apetite insaciável e com um comportamento predatório marcado. Este comportamento permitiu-lhes estabeleceram-se em várias regiões da ilha, incluindo áreas protegidas, representando uma ameaça significativa para espécies como a cagarra (Calonectris borealis), predando ovos e crias ou provocando o abandono de ninhos devido ao stress causado pela sua presença.

 

Face ao impacto desta espécie invasora, tem vindo a ser desenvolvido trabalho de campo, desde o início do ano de 2025, no âmbito do projeto BESTLIFE2030 STOP Predators, que visa reduzir o impacto das espécies invasoras nas colónias de cagarra. As ações do projeto incluem monitorização antes, durante e após a época de reprodução destas aves marinhas, recorrendo a equipamentos como câmaras-trap (câmaras de armadilhagem fotográfica) e censos noturnos com o auxílio de um monóculo térmico, com os quais já foi possível registar a presença de furões em áreas de nidificação e evidências de predação de crias de cagarra, revelando impactos diretos no sucesso reprodutor destas aves marinhas, e frisando a necessidade de mitigar esta ameaça.