Quando pensamos em polinizadores, as abelhas costumam ser as primeiras a surgir na nossa mente. Mas, quando o Sol se põe, a polinização não termina. Enquanto muitos insetos diurnos descansam, milhares de espécies de borboletas noturnas entram em ação, assegurando a reprodução de plantas silvestres e de várias culturas agrícolas.
Existem cerca de 160 mil espécies de borboletas noturnas em todo o mundo, representando entre 88% e 91% de todos os lepidópteros conhecidos. Em Portugal, estão atualmente inventariadas cerca de 2.600 espécies de lepidópteros, das quais apenas 135 correspondem a borboletas diurnas. No arquipélago da Madeira, conhecem-se mais de 300 espécies e subespécies de lepidópteros noturnos. Apesar desta enorme diversidade, as borboletas noturnas continuam a ser muito menos conhecidas e valorizadas do que as suas parentes diurnas.
Ao visitarem flores em busca de néctar, transportam pólen entre plantas e garantem que a polinização continua durante toda a noite. Muitas são polinizadoras generalistas, visitando várias das mesmas flores que as abelhas frequentam durante o dia. Este trabalho beneficia inúmeras plantas silvestres e também culturas agrícolas como árvores de fruto. Curiosamente, embora existam menos visitas às flores durante a noite, estudos mostram que cada visita de uma borboleta noturna pode transportar mais pólen do que uma visita realizada durante o dia, tornando estes insetos polinizadores extremamente eficientes.
A sua importância vai ainda mais longe. Ao contrário das abelhas, que regressam sempre ao ninho, as borboletas noturnas podem deslocar-se por longas distâncias. Este comportamento permite transportar pólen entre populações mais afastadas, promovendo o fluxo genético e contribuindo para a diversidade genética das plantas, um fator essencial para a sua adaptação e sobrevivência.
Estima-se que as borboletas noturnas contribuam para a reprodução de quase um terço das plantas com flor. Muitas destas plantas evoluíram precisamente para aproveitar a sua atividade: produzem flores claras, facilmente visíveis sob a luz da Lua, e libertam fragrâncias intensas ao anoitecer para atrair os seus visitantes noturnos.
Muito mais do que polinizadoras
As borboletas noturnas desempenham também um papel fundamental na cadeia alimentar. Tanto os adultos como as lagartas constituem uma importante fonte de alimento para aves, morcegos, anfíbios e muitos outros animais. A abundância de lagartas é particularmente importante durante a época de reprodução das aves, quando muitas espécies dependem deste alimento rico em proteínas para alimentar as suas crias. Alterações nas populações de borboletas noturnas podem, por isso, ter impactos muito para além dos próprios insetos.
Quando a noite deixa de ser escura
Apesar da sua importância, as borboletas noturnas enfrentam várias ameaças, sendo a poluição luminosa uma das menos conhecidas.
Ao contrário do que muitas pessoas pensam, estes insetos não voam para a luz porque gostam dela. Durante milhões de anos, evoluíram orientando-se pela Lua e pelas estrelas. Como estas fontes de luz estão extremamente distantes, conseguem manter um ângulo constante em relação a elas e voar em linha reta. A iluminação artificial, por estar muito mais próxima, confunde este mecanismo de navegação.
Em vez de seguirem o seu percurso, muitas acabam presas a voar repetidamente em redor dos candeeiros. Este comportamento faz com que desperdicem energia, reduz o tempo disponível para procurar alimento e parceiros para reprodução, aumenta o risco de predação e interfere com a migração e outros comportamentos essenciais à sua sobrevivência. As consequências estendem-se rapidamente às plantas. Menos visitas às flores significam menos polinização e menor sucesso reprodutivo.
Mas os efeitos não se ficam por aqui. A luz artificial durante a noite pode alterar os próprios ciclos das plantas, influenciando a época de floração, a produção de frutos e sementes e até as comunidades de microrganismos presentes no solo. Estes impactos propagam-se por todo o ecossistema, afetando a disponibilidade de alimento e as relações entre diferentes espécies.
Como podemos ajudar?
Proteger as borboletas noturnas não significa apagar todas as luzes, mas sim iluminar de forma mais inteligente.
Sempre que possível, a iluminação exterior deve ser utilizada apenas quando necessária, recorrendo a temporizadores ou sensores de movimento. Nos locais onde a iluminação é indispensável, a utilização de luzes de tonalidade quente e luminárias direcionadas para o solo reduz significativamente os impactos sobre os insetos noturnos.
Nos jardins e espaços verdes, plantar espécies autóctones, criar zonas com vegetação diversificada, deixar algumas áreas mais naturais e evitar o uso de pesticidas são medidas simples que proporcionam alimento e abrigo às borboletas noturnas durante todo o seu ciclo de vida.
Proteger a escuridão é, por isso, muito mais do que preservar um céu estrelado. É garantir que milhares de pequenos polinizadores continuam a desempenhar, silenciosamente, um papel essencial na reprodução das plantas, na alimentação de muitas aves e no equilíbrio dos ecossistemas. Afinal, enquanto dormimos, há toda uma rede de vida que depende da noite para continuar a funcionar.