À primeira vista parecem apenas pequenos insetos. Mas cada artrópode recolhido nas colónias de aves marinhas da Madeira pode ajudar a responder a uma questão importante: estarão espécies invasoras a colocar em risco o sucesso reprodutor destas aves?
É precisamente essa a missão de uma das ações desenvolvidas no âmbito do projeto BESTLIFE2030 STOP Predators, coordenado pela SPEA. Através da monitorização dos artrópodes presentes nas áreas de nidificação, a equipa procura identificar espécies invasoras que possam representar uma ameaça para algumas das aves marinhas mais importantes do arquipélago.
Como se estuda uma ameaça tão pequena?
O trabalho começa no terreno, com a instalação de armadilhas do tipo pitfall junto aos ninhos de aves marinhas. Estas pequenas armadilhas, colocadas ao nível do solo, capturam artrópodes que se deslocam à superfície, permitindo conhecer quais as espécies presentes em cada local.
Depois da recolha, inicia-se uma etapa menos conhecida, mas igualmente importante. Cada amostra é cuidadosamente analisada através de um processo de triagem dos artrópodes. Com recurso a pinças, a equipa separa e identifica centenas de pequenos organismos, distinguindo espécies nativas de espécies introduzidas.
É um trabalho minucioso que exige tempo e atenção ao detalhe, mas que permite conhecer melhor a biodiversidade presente nas colónias e detetar precocemente espécies invasoras que, de outra forma, poderiam passar despercebidas.
Entre as espécies que despertam maior preocupação está a formiga-argentina (Linepithema humile), considerada uma das espécies invasoras mais problemáticas do mundo.
Originária da América do Sul, esta formiga encontra-se atualmente distribuída por vários continentes e está presente em diferentes zonas do arquipélago da Madeira. A sua capacidade para formar grandes colónias, reproduzir-se rapidamente e dominar outras comunidades de artrópodes faz com que possa alterar o equilíbrio dos ecossistemas e reduzir a biodiversidade local.
Ao contrário de predadores como ratos ou gatos, cujos impactos nas aves marinhas são bem conhecidos, os efeitos dos invertebrados invasores têm sido muito menos estudados. No entanto, existem evidências crescentes de que algumas espécies podem afetar diretamente o sucesso reprodutor das aves.
O que já se sabe sobre os seus impactos?
No arquipélago da Madeira foram já documentados ataques da formiga-argentina a crias de várias espécies de aves marinhas pelágicas e costeiras, incluindo a alma-negra (Bulweria bulwerii), a gaivota-de-patas-amarelas (Larus michahellis), o garajau-comum (Sterna hirundo) e o pintainho (Puffinus lherminieri).
Estes ataques ocorrem frequentemente durante ou logo após a eclosão, quando as crias são mais vulneráveis. Em alguns casos, um grande número de formigas reúne-se rapidamente junto do ninho, mordendo repetidamente a cria e podendo provocar a sua morte. Também existem registos de formigas que entram nos ovos durante a eclosão e se alimentam do seu conteúdo.
Embora estes episódios representem uma pequena percentagem das falhas de reprodução observadas, demonstram que esta espécie pode constituir uma pressão adicional sobre populações de aves marinhas já vulneráveis.
O que revelam os primeiros resultados?
As amostragens realizadas no âmbito do projeto BESTLIFE2030 STOP Predators mostram que a formiga-argentina está presente em várias colónias de aves marinhas da Madeira, sendo frequentemente uma das espécies mais abundantes nas armadilhas.
Esta informação é essencial para compreender a dimensão da invasão e acompanhar a sua evolução ao longo do tempo, contribuindo para definir futuras medidas de conservação.
Além da monitorização, o projeto permitiu também desenvolver o Manual de Boas Práticas para a Prevenção e Gestão de Espécies Invasoras na Madeira, uma ferramenta que reúne recomendações para prevenir a introdução e dispersão destas espécies e apoiar a proteção dos ecossistemas insulares.
Manual de Boas Práticas para a Prevenção e Gestão de Espécies Invasoras na Madeira