Os ecossistemas insulares são reconhecidos pela sua fragilidade. Muitas espécies, como a cagarra (Calonectris borealis), evoluíram na ausência de predadores terrestres, o que as torna especialmente vulneráveis a ameaças introduzidas pelo ser humano.
Entre os predadores introduzidos que hoje ocorrem na Madeira encontram-se o murganho (Mus musculus), a ratazana-castanha (Rattus norvegicus), a ratazana-preta (Rattus rattus) e o furão (Mustela furo), todos com impactos documentados sobre a fauna nativa. Os gatos (Felis catus) juntam-se a este conjunto de predadores, representando igualmente uma ameaça para estes ecossistemas.
Tal como outras espécies invasoras, os gatos combinam agilidade, comportamento furtivo e uma elevada capacidade de adaptação, o que lhes permite aceder facilmente a zonas de nidificação, mesmo em áreas remotas.
Durante a época de reprodução, a única altura do ano em que as aves marinhas regressam a terra, estas tornam-se particularmente vulneráveis. Os gatos assilvestrados predam ovos, crias e até indivíduos adultos, provocando não só mortalidade direta, mas também o abandono de ninhos devido ao stress.
Uma problemática com origem humana
A presença de gatos na Madeira está associada à atividade humana, quer pela sua introdução como animais domésticos, quer por entradas acidentais. Ao longo do tempo, o abandono e a reprodução sem controlo deram origem a populações assilvestradas que, tal como outras espécies invasoras, representam uma ameaça persistente para os ecossistemas, agravada pela falta de controlo populacional eficaz. Este fenómeno coloca desafios complexos, não apenas ecológicos, mas também sociais e éticos.
Mitigar para proteger o futuro
No âmbito do projeto BESTLIFE2030 STOP Predators, iniciado em 2025, está a ser realizada uma monitorização contínua das áreas de nidificação, bem como a identificação de focos de predação. A utilização de câmaras-trap (câmaras de armadilhagem fotográfica) e censos noturnos com recurso a monóculos térmicos tem permitido registar a presença destes predadores e identificar sinais de predação.
Estas observações evidenciam o risco que os gatos assilvestrados representam para o sucesso reprodutor das aves marinhas, reforçando a necessidade de continuar a estudar e mitigar esta ameaça. Paralelamente, é fundamental promover a sensibilização da população para a posse responsável de animais, de forma a prevenir o abandono e o crescimento de populações assilvestradas.
A conservação das aves marinhas depende não só de ações no terreno, mas também da mudança de comportamentos humanos. Num território onde a biodiversidade é única e insubstituível, enfrentar o problema dos gatos assilvestrados torna-se uma prioridade urgente para garantir o equilíbrio ecológico e o futuro das aves marinhas da Madeira, sendo fundamental reconhecer que pequenas ações, como o abandono de um animal, podem ter consequências profundas nos ecossistemas.