A monitorização das colónias de aves marinhas que nidificam no arquipélago mantém-se como um dos principais eixos dos trabalhos de conservação em curso. Este acompanhamento sistemático é fundamental para compreender a dinâmica das populações, avaliar o estado de conservação das espécies e identificar as principais ameaças que enfrentam ao longo do seu ciclo reprodutor. Através de diferentes metodologias, é possível quantificar o sucesso reprodutor e recolher dados essenciais para orientar as ações de conservação.

 

Os resultados desta monitorização revelam, no entanto, desafios significativos. Em muitos casos, as aves regressam a terra para se reproduzir, mas não conseguem concluir esse processo com sucesso em muitas ocasiões. Este fenómeno resulta de um conjunto de fatores interligados, de natureza ambiental, ecológica e antrópica, que afetam diretamente a capacidade das aves marinhas em criar descendência viável.

1. Adulto de cagarra e rato 2. Rato a predar cria de cagarra 3. Lagartixas e ovo de ave marinha

Entre as principais causas destacam-se as alterações nos ecossistemas marinhos, associadas às mudanças climáticas, que têm vindo a modificar os padrões de produtividade do oceano e a reduzir a disponibilidade de alimento nas proximidades das áreas de reprodução, sobretudo durante o período crítico de alimentação das crias. A escassez de alimento compromete a condição física dos adultos e diminui a probabilidade de sobrevivência das crias, aumentando as taxas de mortalidade ainda nas fases iniciais do desenvolvimento.

 

Outro fator determinante para o insucesso reprodutor é a predação, em particular por espécies introduzidas. A presença de gatos, cães e roedores nas ilhas constitui uma ameaça séria para as colónias de aves marinhas, uma vez que estas espécies predam ovos, crias e, em alguns casos, adultos. A monitorização com recurso a câmaras tem vindo a confirmar a presença frequente destes predadores nas zonas de nidificação, evidenciando a pressão constante a que as colónias estão sujeitas. Para além da predação direta, a simples presença destes animais provoca perturbação, stress e abandono de ninhos, comprometendo a incubação dos ovos e o desenvolvimento das crias.

 

A degradação dos habitats de nidificação é igualmente um fator relevante. A perda de qualidade e de disponibilidade de locais adequados para a reprodução reduz as opções das aves e aumenta a vulnerabilidade dos ninhos à predação e às condições meteorológicas adversas. Estas pressões tornam-se ainda mais graves quando se consideram as características biológicas das aves marinhas, que apresentam ciclos de vida longos, maturação sexual tardia e uma produtividade anual reduzida, limitada à postura de um único ovo por época reprodutora. Assim, qualquer perda significativa num ciclo reprodutor pode demorar vários anos a ser compensada pela população, e perturbações sucessivas podem conduzir a declínios populacionais acentuados.

 

Perante este cenário, o compromisso com a conservação mantém-se firme através de projetos como o LIFE Natura@night e BESTLIFE2030 STOP Predators. O trabalho no terreno, aliado à monitorização contínua e ao uso de novas tecnologias, é essencial para identificar ameaças, avaliar impactos e implementar medidas eficazes de proteção. Paralelamente, torna-se fundamental promover um desenvolvimento sustentável e responsável, que assegure a preservação das aves marinhas e dos seus habitats, garantindo a viabilidade destes ecossistemas para as gerações futuras.